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Apresentação
 
Num tempo de vale-night e ostentação, só tomando lepo-lepada do Congresso e a mídia soltando a cachorrada com poposuda filosófica plagiando baião.

Eis que aparece um Cd com substância, trazendo ecos de infância, um som sincero, cheio de lamento bom, pra cima, um samba que domina sem o falso aplauso de programa de auditório, sem o contraditório “faz barulho” que vira bagulho de quinta na boca de quem pegou o bonde andando.

Um samba re-desenhando uma época boa de uma sonora garoa orquestrada, de canto livre semeando saudade, de braço forte e afetivo de comunidade.

 Emerson Urso ostenta apenas o que sustenta: a simplicidade, falo de cadeira porque o conheço desde os tempos de funcionário da Contemporânea e sempre manteve esse sorriso calmo, esse olhar sereno de talento nato em ascendência e abundancia, sempre manteve esse lirismo, esse carinho, essa cadencia, essa elegância...  

 Vitor Pessoa 
Poeta, compositor e músico

 

Ficha técnica

Charlie Dief  - Arranjo e violão

André Hamilton - Piano  

Bené Groove - Contra Baixo  

Marco Stoppa - Trompete  

Allan Abbadia - Trombone  

Gabriel Fortunato – Sax

Marquinhos Jaca – Cavaquinho em bandolim

Marcelinho Monserrat – Violão 7 cordas

Emersson Ursoo – Repique de anel

Tavinho Batuqueiro - Bateria  

Erminho Rabelo – Cuíca e surdo

 

Tiago Galta e Marcus César – Percussão geral
 


Villa Studio – São Paulo

 

Técnico de gravação – Caio Teaser

 

Mixagem e masterização – Thiago Beatriz

 

Foto – Thiago Beatriz

 

Arte – Fabinho Ishio

Crítica
 
Tem muita...muita coisa boa, de qualidade sendo produzida. O samba então fechou 2013 com mais de vintes álbuns novos de tremendo bom gosto (Não confundir com um grupo homônimo, carioca de repertório,digamos, um gosto tanto quanto duvidoso). 
 
Tem Goiabada Cascão em forma de cd na área, sim, tá ai o primoroso 'Na cadência e na elegância' do paulistano Emersson Ursoo que não me deixa com nariz pinochiano. 
 
Afilhado de Mestre Monarco e de Dona Ivone Lara, de quem é parceiro. Coleciona parcerias com nomes como Charlie Dief, Luis Carlos da Vila, Walter Alfaiate, Milbé, Edvaldo Galdino, Délcio Carvalho, Dorinho Marques, Ricardo Rabelo e Marquinho Dikuã. Foi nos anos 1990 entre encontros de choro e rodas de samba que despontou empunhando o estandarte do samba de raiz,ou samba tradicional, como querem alguns. 
 
Numa época onde muitos de sua geração que portavam cavaquinho ou pandeiro se debandavam, de cabelos oxigenados e roupas 'me-­‐chupe' para o 
fugaz e incerto sucesso midiático nas ondas daquilo que se convencionou chamar de  'pagode', e também, mui apropriadamente,  sambanejo   (canções românticas ou pululantes aos moldes dos sucessos de duplas sertanejas, mas com orquestração de samba). 
 
Nesses idos tempos, Ursoo mandava em Ré Maior: galo que vai atrás de marreco, morre afogado! 
 
Ao optar pela porta estreita do compromisso com o valor cultural, resistindo aos clamores tentadores da sereia-­‐hidra, a mídia traiçoeira, Emersson Ursoo hoje, amadurecido, como o pinho de um bom e velho 7 cordas, coleciona obras de grande riqueza musical, quer melodica, quer poeticamente. 
 
Me causa espécie quando vejo ele sendo apresentado como grande revelação do samba e um Diogo Nogueira é mostrado como alguém de carreira já consolidada. É o poder da mídia. Revelação como? O primeiro cd da carreira do Ursoo, 'Respeito ao Samba' é de 2002, já o filho do grande João estreou seu cd em 2007. 
 
O álbum 'Na cadência e na elegância' é um convite pra sonhar. Emersson com sua voz serena, bem postada. Voz de sambista; acalenta quem o ouve. A faixa-título que abre o disco num andamento sincopado ornamentada pelos arranjos exuberantes de Charlie Dief com um naipe de sopro é um irresistível convite pra dançar. 
 
A sequência é de tirar o fôlego. 'Encontro das auras' (com Dona Ivone Lara e Luis Carlos da Vila), vai ao imo.‘Nota musical orvalhada pelo encantamento’. Como diria Jorge Aragão (e eu não canso de parafrasear) 'rasga a alma com delicadeza'. Um dos sambas mais bonitos que já ouvi. 
 
Mas aí Emersson maltrata, 'Minha Paz', uma pérola, uma pedra de nácar lapidada a três mãos iluminadas (parceria de Dikuã e do imortal Délcio Carvalho). Música composta há quase uma década e pincelada numa tacada de mestre do artista. O dueto com Flávia Oliveira é magistral. Afinada e cativante, Flávia enfeitou de estrelas o véu dessa canção. 
 
No rastro desse cometa outra obra-­‐prima 'Novo Encanto' coautoria de  Ricardo Rabelo e de novo, a poetiza da Serrinha, Dona Ivone Lara. Aí é covardia, Ursoo. Canção de amor que 'vira do avesso e revira o avesso'.Essas três melodias são um convite para contemplação. 
 
'Feito céu antes de chover/ fechado estou depois de te perder'. Com essas linhas sublimes inicia-­‐se 'Tristeza Atroz', a segunda do CD assinada só pelo Emersson, a primeira é a faixa-título do CD. Samba dolente que vai fundo. 
Introspectivo. Experiências sensoriais que só música de boa cepa pode proporcionar. Convite pra se emocionar. 
 
Seguindo em sua caneta solitária 'Clausura', samba­‐canção de Ursoo que remonta à musicalidade genial de Eduardo Gudim: 'Esses meus olhos/ na mandala do destino/viram os teus pelo caminho/ e brilharam sem cessar. Em 'Morena Encantada', com Milbé, uma loa à musa inspiradora. A letra bem no estilo do Ursoo, nada de rima pobre. A linguagem metafórica dão mais beleza e suavidade como nessas passagens: 'tu és uma rosa singela' e 'olhos tão lindos feitos esmeraldas'. Convite para se encantar. 
 
Com Dodô Andrade, Anderson Alves e Deley Antonelli, Ursoo compôs a bela 'Lágrimas'. Chamamos atenção à interpretação emotiva do cantor. E com Dorinho Marques, 'Lamento à natureza' um dos pontos altos do cd. Convite pra reflexão. 
 
Fechando com chave de ouro, o lindo samba 'Parceria', parceria com Charlie Diéf e Ricardo Rabelo, este último divide os vocais com Ursoo. Bela sacada a comparação do encontro da letra e melodia, algo natural como tempestade e trovão, a lua e o céu, a fauna e a flora. 
 
Cadenciado e Elegante, Emersson Ursoo é a luz no fim do túnel. 
 
Ricardo Bispo

crítico musical, compositor e escritor. 

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